16/07/2008

saindo das ruas

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__ Com licença moça, você já conhece a revista Ocas"?
__ ... tou atrasada pra reunião...

Era uma noite de lua cheia: da rua Augusta podia-se presenciar rotineiro happy-hour universitário prolongar-se em alcoólica paz; sob encanto de desconhecidos (e bons) olhos, alhures, Ricardo reapareceu em sua no-peu ordinaire esquina. Na primeira vez ainda não havia ameaça homeless, embora alguns albergues tivessem sido devidamente mapeados, sendo o Arsenal da Esperança descrito como menos ralé. Nesse segundo encontro já ciceroneava na boemia paulistana os pedidos de uma ex-ficante da ong atitudE!, portanto não foi por causa de sua vinda que essa época não foi fácil nem feliz para dividir aposentos com desconhecidos como ex-presidiários, aleijados fim-de-carreira, antigos figurantes da globo, michês decadentes e demais malucos abandonos senis.
A primeira menção à revista foi transmitida aos ouvidos do futuro chão de um já tradicional psicodrama. Percebia-se o fôlego de incentivo oculto por trás da divulgação do material, não que se tratasse de um típico brainstorming ou manjada maneira de usar mendigos para distribuir nova idéia de riquinhos revoltados (a favor dos menos favorecidos), tudo em sociedade surda pro espectador que desceu ao sub-solo para melhor conhecer aquele num primeiro momento "neo-usurpador" project.
Altas horas e Ricardo, sem nunca perder a paciência e boa vontade, explicou mais uma vez do que se tratava aquilo que certa vez Soraya, Jeremias, Frei David e Marrocos disseram não ser uma ong e sim uma oscip. Na verdade, além de ser uma organização civil de ação social, "a revista nasceu do encontro de pessoas e grupos que articularam desde 1998 para viabilizar a implantação de um projeto de geração de renda e a abertura de um canal de expressão para a população em situação de rua. O primeiro encontro para a discussão da idéia aconteceu em São Paulo, na sede da Rede Rua. No Rio de Janeiro, a primeira iniciativa foi apresentada na PUC-Rio, como projeto piloto, em janeiro de 1999. Em outubro do mesmo ano foi feito contato com a Rede Internacional de Publicações de Rua (INSP), que indicou o projeto Hecho en Buenos Aires, na Argentina, para a troca de informações. São mais de 80 publicações filiadas à Rede Internacional de Publicações de Rua - International Network of Street Papers, INSP - signatárias da Declaração das Publicações de Rua (The Street Papers Charter, na internet em http://www.street-papers.org/).
Ocas" é uma revista vendida exclusivamente por pessoas em situação de rua, que têm nesse trabalho a chance de mudança efetiva em suas vidas. O resultado decorrente da venda da revista - ficam com 2/3 do preço da capa - permite que estabeleçam novos contatos, ampliem seu círculo de relacionamento e dêem passos rumo à autonomia financeira e saída da situação de rua. A revista tem temas culturais, políticos e sociais, com vendagem executada exclusivamente na rua. De periodicidade atualmente bimensal e de circulação, a princípio, em São Paulo e Rio de Janeiro, a publicação também reserva espaço para a expressão das populações em situação de rua e aborda problemáticas relacionadas ao tema. Com essa proposta, ao mesmo tempo em que coloca o debate na agenda da sociedade, a oscip (organização da sociedade civil de interesse público) promove a autonomia financeira e fortalece os vínculos comunitários das pessoas em situação de rua.
Após tomarem conhecimento sobre os objetivos do projeto, os vendedores (maiores de 18 anos) recebem uma credencial e 10 exemplares gratuitos para iniciar o trabalho. A partir disso, passam a comprar cada exemplar por 1 real e vender por 3 reais."
Chegando à sede do Brás, a alta cúpula lhe cede um gravador de voz e câmera fotográfica para registrar a estória de cinéfilos dorminhocos. Nas primeiras reuniões de sábado quem manda e desmanda na revista são moradores de rua e/ou sujeitos em situação de risco social. Cada elemento é imbuído de trazer mais vitalidade afim de prosperar tarefas de inclusão. Nas reuniões o clima não é gelado e não há adversidade e/ou desigualdade entre ricos e miseráveis. As cartas são postas na mesa, analfabetos têm oportunidade de aprender uma boa soletração de tímidos textos. Não-falsificadores votos são feitos na hora em que uma psicóloga vinda dos pampas fuma num cachimbo e o Snoopy expressa intenso desejo de entrevistar os dubladores do Chaves & Chapolin Colorado, nem que isso seja a última coisa que ela tenha que fazer na vida (!) [onde anda o Snoopy? A última aparição de sua dentuça alegria foi notificada no albergue da Baixada do Glicério (onde é possível ser expulso em se mandando descasos de funcionários à puta que pariu)]. Deduzidos de desacordos anti-formais que não surgem do nada numa pesquisa com universitários das UNIs da vida, há filmagens de espontâneos preparos de evolução/regressão. Se alguém pegar no seu pé e/ou apelidar-lhe de retardado, certifique-se de estar sem uniforme quando tiver de acertar as contas. Não há desacordos muito menos brigas sangrentas na sede. É tudo alegria e curtição, tudo que falta de remorso sobra em festejo, regado a muita manguaça e comidas típicas mineiras na poesia da Pilar... Se Josoel misturar psicotrópicos com cerveja a Maria Alice o advertirá dos efeitos colaterais transatos. Só o que vale nas festas é o lado bom e leve das coisas benquistas nos recitais do sarau do Espaço Cultural do Zé.
Ainda na sede, reencontrando a temível condutora do psicodrama, é possível conferir como se faz uma boa distribuição de energias entre vendedores... É preciso saber observar - disse a charmosa madame, sabendo como ninguém olhar no fundo dos olhos mais reclusos sob pálpebras da vida (marginal). Ex-alcoólatras, ex-flanelinhas e (i)migrantes disputavam a atenção da "não-cruel mãe de rua", ilustrando o perfeito mosaico de perdedores oficiais da cidade grande (TODOS já conhecidos por este que vos escreve) que, reergendo-se, são captados para digno treinamento. Aprende-se a vender a revista sem dizer que ela ajuda moradores de rua, pelo menos num primeiro momento de interação pois, segundo fontes de boca de rango mais seguras, a tentativa de compadecer clientes não credita a entidade com 23% do respeito desejado; invariavelmente dedos apontam para relógios enquanto lentes de contato verde-água semi-desfocados olham pro nada, tentando despistar de vista a cara de cachorro/cadela abandonado(a) do rosto do(a) vendedor(a), através de fugazes recusas, contrárias à mais bem intencionada (falta de) salivação. No Masp até ouvem um pouco o bordão, mas é na frente do Centro Cultural São Paulo que se aprende a não falar sozinho e/ou mandar à merda quem não pára pra ser malhado, proposta infalível, pois os clientes tornam-se mais simpáticos e corteses quando tratados com igualdade... É claro que é proibido usar crachá quando vosmecê decidir brigar com um vendedor de poema que se acha dono do pedaço; tem também aquela mulher que mede a pressão, entrevistadores do Ibope, artesãos, fora pipoqueiros, a fofão e seguranças que confundem privado com público nas calçadas (não mande o presidente do CCSP enfiar pimenta no cu). Urge sobretudo boa entonação pra render os primeiros rangos sem valium, já que nos albergues das pastorais judaico-cristãs é de praxe aprender a dormir com um olho aberto e outro semi-onírico (infantis r.e.m.s de Brasília costumam piscar nesses recintos...); os pesadelos geralmente são protagonizados por post-assassinos e/ou ladrões que penam incansavelmente no subconsciente de impunidades policiais em sarjetas adjacentes ao Pedroso. Ingressando no mundo Ocas" dá pra aprender a jogar futebol com o incentivo técnico do Pupo; porventura muitos vendedores-jogadores viajaram para copas mundiais de moradores de rua - decisões finais já ocorreram na Dinamarca e África do Sul, nesse ano a partida será na Austrália. Atores aspirantes e/ou amadores podem receber aulas com a trupe do Teatro do Oprimido; também tem aulas de informática e incursões pra FLIP de Paraty. Os mendigos mais nouvelle vague surpreendem-se com o discurso cultural dos vendedores mais nego véios, alguns jornalistas, outros estilistas; no entanto os comemorados "tudo ao mesmo tempo agora" são mais confirmados colaboradores. Há um clima de competitiva harmonia pelo carinho da Pilar, apadrinhamento camarada e oOoôoOos do Zeca, nunca desistente reciprocidade do Ricardo, filosofia de botequim do Josoel, experiência de vida e responsabilidade do Marcos - que controla as vendas da revista -, tem até vendedor graduando em química em universidade pública.
Num belo dia de abordagem dos alunos de direito da USP, uma menina do DCE perguntou se a Ocas" tinha contato com o que ela chamava de "líderes de rua" - não apenas os caras do PCC, Comando Vermelho, Gaviões da Fiel, Cyber Cangaceiros e demais brandas-facções terroristas-tupiniquim. Segundo ela, só a violência acaba com a violência, só uma ação genuinamente de massas unificadas apartir da base mais baixa e dialogada com lumpem-proletariados poderia suprir a necessidade não-eleitoreira de um entrismo apartidário. Mesmo concordando com o aspecto conflagrador de sua nobre missão, a melíflua menina de cabelos caramelo de pontas louro-encaracoladas, diferentemente dos 91% que passam rasantes à oferta do produto, comprou a Ocas" e desistiu de articular um enlace de caráter inter-contribuitivo com organizadores (muitos deles alunos da mesma faculdade) de proposta de mudança mais miscigenada. Segundo as mais em voga elucubrações trotskystas da universidade em questão, há um desmembramento geral das táticas populares que enfraquece a neo-esquerdalha filha de 40 anos de acordos espirituais semi-clandestinos assinados em presídios e calabouços do DOPS. Será que a menina caramelada sabe que o poder paralelo está a engatinhar estagnações mais s/nossaum than CPIs-passatempo?
Aspirando novos ares, estourando a ruptura imperialista ou não, transigências de consciência mais relutantes, filiando-se ao "cada um por si" em grupo, encontram horizontes-possibilidade no Rio de Janeiro sem que o rapa se preze à demasiada agressividade de não-finas expulsões. Albergues oferecem oportunidade de emprego, dá pra dormir de bouwa nos mocós da Mangueira e São Cristóvão; mas é na Ocas" que toda uma recepção fagueiramente familiar disponibiliza mecanismos de auto-transformação aos batedores de rango do restaurante Garotinho. É tão bom trampar por lá... Em frente às celebridades do Cine Odeon e demais pontos de venda o ar é fresco, a orla do Flamengo e da Glória oferece boas desculpas pra refestelantes cochilos pós-leitura obrigatória do vestibular doutra cidade. No bairro de Santa Tereza tiroteios das favelas vizinhas são abafados para a composição de primeiro poema pós-lágrimas dum retiro espiritual, tudo em meio ao abraço de repleta natureza. Na sede eles tiram foto pra carteirinha e o click registra inesperado momento de dentes acavalados... Os vendedores são todos sangue-bom e vosmecê pode ajudar um deles a conseguir vaga pra não dormir numa fazenda comunitária; é tudo surpreendentemente apaixonante, dourado... Preta Gil e Bruno Gagliasso dão gratuitos closes em Ipanema enquanto Bentinho é chifrado, chegam os paparazzis e vosmecê sai na capa da imprensa marrom... ah... nada como um legítimo açaí na tigela e/ou suco de clorofila que gentilmente esquecem de te cobrar (raridade em se tratando de cariocas); uma balada-show-rave com Cordel do Fogo Encantado e vosmecê dançando com Camila Pitanga e Leandra Leal - tudo em menos de um mês... Os palavrões vão cedendo lugar a escancarados e trincados sorrisos, que aos poucos vão retorcendo, arregaçando e impregnando lábios inferiores pra aparição de gavetudos arraxtuix de sotaque. De volta ao terminal Tietê, a morte. A pressa.
Só mesmo um bom e velho filme hippie na Cinemateca e/ou luz silenciosa pra recuperar o zeitgeist recém abandonado duma fuga #3 pois, sendo esquecido o livro de amiga-atriz no armário do CCSP, o regresso teve de despertar no coração do distante vício por um ar superpopulosamente resignado às cinzas pombas do sufoco... Eram dramaturgias de Plínio Marcos? Ou Bukowski?... Bom, volta-se a malhar na academia do Garrido, fazer terapia em grupo e reobter permissão pra tomar banho na casa de transformista não-umbandista muy solícita às indomesticadas queixas de los más olvidados do Largo do Arouche. Arrecadando cerca de r$60,00 com diárias vendas da inseparável revista (vosmecê será pra 100pri lembrado e chamado pela alcunha de Ocas"), pode-se dar ao luxo (sic?) de pagar o cursinho popular da Afrobrás; voltar a comer saboroso rodízio de sushi da Liberdade num restaurante onde a turma do circo é recepcionada sem ser discriminada; um Tuc´s por r$ 0,50, raiz forte, leite de soja... Na locomotiva do Brasil é aconselhável ter muitos e diversificados compromissos pra não bater ponto todo dia com Soraya no café da manhã do Penaforte e nos também for free chás de canela da paróquia interior do largo São Francisco, sob auspícios da irmã Catchusca (freira cantora fã de Cássia Eller) e encaminhamento de novos albergados by Gertrude Stein, assistente social loira de olhos azuis semi-cegos e sorrisos sinceru´s.
Aos poucos a carreira de poeta vai sobrepujando a de indigente com boa causa, ou vice-versa, numa tradução livre... É possível vender revistas na praça Benedito Calixto e perguntar pra Marília Gabriela se o namoro com Gianecchini era de fachada e/ou examinar se há traços de passado groupie através de rápida conversa com Clarah Averbuck; depois o sujeito não pode dormir no curso de análise poética do Marcelo Tápia na biblioteca Alceu Amoroso Lima - oficina essa cuja influência trará à tona observações fluido-concretas a respeito do aparente conteúdo de poemas como "liqüidificador" e "ar condicionado". É vocação/talento/dom para a arte a válvula de escape entre infinitas oportunidades a um espírito anarco-cosmopolita? Ou a militância transcendental foi pra liga profissa sem aviso prévio? O que na verdade rende novas amizades fictícias pode ser desculpa para voltar de vez ao batente da hiper-exposição. Na rua rola muita troca de informação, aprendizado com metafisicu´s 69´s também. Futuros famosos de índole mais pública do que atuais dirigentes da nação te oferecem uma parte da vida e vosmecê poderá dizer que um dia eles estiveram em situação de risco social, veja bem. Maitê Proença e Lobão são testemunhas sem alzheimer que confirmarão passado sofrido que justifica um enraizado sucesso. Gravem o nome dos vendedores, eles prometem despontar num movimento verossimilhantemente transmaloquêro, a confirmar.
Amanhã será um novo dia alto-astral, é preciso tirar muquiranas e piolhos de galinha do leito público; tomar bom banho de descarrego para uma libertadora limpeza espiritual; recarregar o celular; desprorrogar compromissos; lavar roupas 18% mofadas, meias chulezeintas, mudar-se pela 44ª vez... boa noite...

__ ...brigada moço, soy una seguidora do Jamelão, boa sorte.
__ Viva forever...
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11/07/2008

impressões interiores

Quem era aquele moço semi-nu na resenha da Mix Brasil? Poesia ainda era algo estritamente diletante antes que meu primeiro e-mail lho fosse enviado, solicitando seu trabalho. De vez em quando eu recebia edições independentes dos peculiares versos que, agregados a escritos inéditos, culminaram no livro "Poesia Gay Underground: História e Glória" - lançado pela coleção da DIX editorial, da editora Annablume.

Como todo bom artista, biográfico, ele tem estilo às vezes elegíaco, ou escatológico...

Foi no ano de 2006 que comecei a acompanhar sua paidea interior de personalíssimos frames. Procurei sempre não me ater apenas a seu aspecto gay, pelo fato d'eu não escolher preferências culturais segundo rizomas classificatórios que emaranham patrimônios intelectuais de maneira que muitos leitores deixem de considerar material de qualidade. Hugo Guimarães perpassa o gênero LGBT com uma complexa designação narrativa, bem resolvida, objetiva e pouco barroca. É nesse ponto que, provando ser um poeta que transcende em vida - segundo ele próprio diz em um de seus poemas - ele classifica e modifica as coisas ao seu redor, sempre atento ao que deixa guardado para um documento futuro, quando os signos em questão estiverem pasteurizados no resultado final do leite de suas ruminações, mesmo que ele diga já ter bebido todo o conteúdo possível...

Sua divertida e aderente maneira de expressão pode ter seu lado mais profundo despercebido. O que ele tem de tradição e ruptura é uma voz blasé, de beesha ativa (literariamente falando), decididamente pragmática - nisso semelhante a da portuguesa Adília Lopes; voz essa que, sempre rebelando-se contra cada verso anterior, surpreende e enterra uma idéia que nem chegou a esfriar, embora ainda formalmente ligada à proposta geral do corpo do poema (93% das vezes uma mini-estorinha).
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"Eu pus uma garrafa no meu cu
Para se uma mente suja tentar
Dizer alguma merda
O som morrer.

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Meu cu viajou para um lugar longínquo
Eu disse que ele era um planeta morto
Mas agora eu digo que ele só está em processo de beleza
Ecoando, sozinho e lindo."

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Sem prejudicar a compreensão da leitura, a duração dos poemas reflete o suicídio involuntário da moral, como se estivesse de cabeça pra baixo, aquilo que uma vez o poeta disse ser impressão interior é na verdade a derrocada de arquétipos aceitáveis em uma sociedade hipócrita. Como sob uma pele de pobre mística, que vai sendo arranhada e marginalizada, vemos o esqueleto de sua libertadora, construtiva rima interior, bem-humorada e jamais fosca. Nem mesmo seus pais escapam, um tema recorrente, como se estes fossem os filhos, analisados e redirecionados, sem pudor, a uma superação trágico-cômica que usa e abusa do Édipo, ao longo de raríssimos constrangimentos. Resolutamente lamentado, o patriarcalismo é visto através de fracassados sujeitos sob um céu de estômago. Hugo está longe de se sentir culpado por um amor mal-consumado.
Nessa particularidade o artista mais do que nunca demonstra que, embora ainda muito jovem, já está acima de qualquer suspeita formado em base firme. A problemática familiar não tem a gravidade sugerida e sutilmente camuflada nos dramas pessoais que tanto adoram explorar e (semi) divulgar relatos da vida real no labirinto do desejo do ego. O amor é tratado em diversas camadas, (como nos graus de 1 a 5, segundo a psicologia) Hugo Guimarães não só sabe que todo homem tem tendências homossexuais, como também ri e cobra por isso. O tesão mais enrustido não lhe escapa, sendo arrombado e repercutido em todos os outros teores sexuais ainda idealizados, porém já antecipadamente fadados em seus amantes.


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"Pit boys
Vão me espetar numa cruz
Vou gozar mais
Ou menos?
"
 
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A frustração não deixa-se seduzir por um alegre pessimismo, saudável: nesse ponto encontrando uma espécie de iluminação nietzschiana, estabelecendo um lugar comum aos famigerados e ridículos apelidos a um derredor de ratos, TV, sadismo, peixes, perspicácias dos intuitos aspirantes ao sucesso... tudo visto por olhos que, sentados e tranquilos, como num trono, vão ordenando o desfile das ilusões rumo ao abismo.
Poderia ser um bestiário fisiológico a contribuição de seu chocante álbum de imagens. Segundo o que já disse uma análise anterior, seu bom gosto não crê na etiqueta culta e ascética. Sendo almodovariano, inusitado, ele cria culinária nova.

O sabor e o peso do concretismo é seminal, gelado, levado nas costas, quando ele não está a doá-lo aos garotos ao contrário (falsos héteros); drenando, secando e petrificando-os o poeta se vinga dos baixos graus de homossexualidade com uma fina malícia subtextual às coisas mais prosaicas e/ou rotineiras, como um simples chek-up.
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"Eu disse à mama 'tchau' e ela disse 'boa sorte'
Eu fui ao médico e ele era lindo
Ele era gentil, ele tocou meu joelho
E eu disse 'quer casar comigo?'
Ele estendeu sua mão e me disse que a vida é linda
"


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Se vemos o mais alto grau de afetação típico das bibas que freqüentam a buatchy A Loca, Del Candeias poderia cair de amores e introduziria o ainda pouco conhecido poeta no mundinho literário em uma jornada pelos tipos mais bizarros da noite urbana...

Seu lado espiritual também é exercitado, andando com um "cavalo no pescoço" - Platão lhe segue, todo arregaçado. Abusando e logo descartando as figuras de Jesus Cristo, Lúcifer, Bob Dylan... Todas suas influências o acompanham de modo pouco óbvio, tanto é que sua escolha por um cardápio mais carnal e auto-narrativo oferece um passado literário, como em filmes de terror e rock n' roll, apenas na forma de mera colagem contribuitiva, entendendo o "cavalo" no sentido nagô/iorubá/caboclo sem explorar total uso dessa entidade em pastiches psicográficos de um paladar lingüístico já inadequado e rapidamente arcaizante das escolhas e montagens imagéticas exteriores.

Ocultando e digerindo os já manjados mecanismos de sistematização da vida poética em um novo, pós-moderno e desbravador EU lírico, trilhando uma promissora e renovadora voz que, tendo rompido até com seus pais, é acompanhada na sua busca no decorrer do livro, aqui não há a simples e recorrente falta de escrúpulos e fé: ele vai além da formalização de acidulantes paganismos estéticos, a desenvolver desse modo uma doce crueldade no ponto G para o sincero envolvimento meta-pessoal com o leitor, afiado na perfilação de elementos e estados de matéria, devidamente assimilados e citados ao meio de uma proeza orgânica de relacionamentos brutos.

Além de ter a herança artística no pescoço; o óleo no ar; o cérebro de ar; o rato no cu; o cu verde; o já comentado sêmen de concreto; a vagina nos olhos; os joelhos secos; guitarras masturbadas; bonecos de lama; junto com os garotos ao contrário e os pit boys aparecem os garotos migrantes, os garotos pop, cocô; a história do pau...

Há de se notar também um clima teatral em suas questões e jogos de relação fetichista, os heteros e o mundo normal são vistos por um crivo de observações neo-rodrigueanas, deixando passar apenas os segredos sexistas (-por um triz-) e as despóticas-afetividades, esquecidas de bom relato há tempos na literatura brasileira; enquanto a maioria dos poetas insiste e esforça-se pra esconder seu lado inadequado, ele faz questão de armar cenas que exageram periculosidades sentimentais com uma mordacidade que Ana Rüsche ainda não foi capaz de exprimir, prestes (e para a alegria das diferentes opiniões) a desfazer-se perante a bondade pueril de aguardada aproximação alheia...

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"Reage meu assalto
Aperta meu saco
Eu escovo seus dentes
E misturo pasta quente
Quase caindo da sua gente
No teu punho tem corrente.

e aperta minha mão
Aberta minha mão
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Eu vou entrar
No seu lugar
"
 
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O que consta parecer uma rima óbvia e fácil é desculpada pela distante verdade; perto dele ela é recebida com carinho e com a possibilidade de transformação que todo espírito aberto às solidões alheias pode aceitar, lançando à extremidade de seu pensamento trocadilhista uma maleabilidade de relação com o outro, a ressaltar assim pontos positivos em vantagem à poesia trancafiada das geografias abstratas, que não dispõe de saídas em um mundo pessoal penoso, exagerado, glamourizando a dor. Por isso Hugo Guimarães não se afoga em típica afetação, não sufoca sua riqueza vocabulária com um vazio exteriormente existencial. Lendo todo o livro nota-se uma progressiva melhora e abertura do gênero em que ele escolheu lançar-se.
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"É noite na água
Eu odeio salva - vidas
Sexo não salva
A queda de uma rocha no mar
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Tomara que ele não ceda à armadilha de cair na própria caricatura, de maneira que possa continuar evoluindo sua arte.

http://hugorguimaraes.blogspot.com/

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