01/10/2008

transcendência afogada

Oficialmente, os 4 elementos fundamentais da natureza são fogo, terra, ar e água. Cada um tem sua função, grau de adaptação, combinação; juntos - nos estados sólido, líquido e gasoso (sem falar do plasma e da hipótese einsteiniana da luz) - eles tentam sobreviver no mundo, depois que a raça humana subjugou-os de tal forma que se tornou vítima de suas criações.
Agora imagine que vivemos em algum lugar, primórdio de planeta onde essas matérias ainda não se misturaram muito, como num urbanismo primitivo, hibridez flutuante... Idéias esparramam-se sem futura evolução em vista, pelo prazer no significado que engrandece uma narrativa que é o próprio processo, parte crítica de si mesma e que não prejudica o trabalho do todo, mesmo que ela chame-lhe de OUTRO - conquanto não seja tão boazinha com ele não -. Ambos confundem-se na contribuição para algo mais elevado do que discreto individualismo, atento à cromoterapia de amorfo e antigo princípio, meio marginal, regendo a história da existência.
A consciência meio sartreana de si mesma, não chegando à náusea do existencialismo, mas como que fixada na solidão – no bom sentido que esta pode construir às custas de logopéico tato às under-verdades, subterrâneas leis -, torna-se inflexível, mais importante e reveladora do que avanço tecnológico.
.Ciência, política e religião ainda não coligaram-se a intelecto capaz de exceder em qualidade e quantidade ético-verbal a metalinguística de si mesmo, disso advém o retorno ao aforismo socrático “conhece-te a ti mesmo”.
Gerando teatralidade de intransigência biográfica, dizem que a verdadeira façanha do poeta é analisar - non-stop, inviolável, como réptil, talvez um jabuti - a superfície como mero museu primitivo do homem, sempre retornando aos passos bem estudados de longa carreira, encarapuçada pela memória.
Revestido de trato contemporâneo, tal retorno seria denotado por um anfíbio que decide voltar a ser peixe, pelo fato de não reconhecer-se na superfície, não como parte daquele todo que ajudou a articular.
O desejo do pensamento humano então criou Deus para resguardar vida após a morte, o Paraíso. Comumente associado ao céu, aqui ele figura como Mar. Porém, em fase de ininterrupto e paradoxal crescimento, enquanto o EU lírico desce às profundezas do reino subjetivo, o corpo, idiotizado, segue contrário ao encanto dos cativos hipocampos de Netuno a despistar horizontalidade de relações, criando aviões, naves espaciais, eis o conflito atual da humanidade, o mergulho às avessas: qual a verdadeira saída depois do encontro com nós mesmos?.
Não é de hoje que a água vem sendo explorada na poesia, elemento tido como negativo e/ou feminino pela astrologia, baixo, que desce; sem ele não seria possível vida. Se tornando cada vez mais preciosa, água (doce), no estado líquido, também figura como respiração, vitalidade de poema bem acabado, urdido, visceral, cíclico. Talvez a previsão de um mundo sem água (ou totalmente afogado por ela...) potável esteja influenciando na reconsideração fantasiosa de sereias, filhos afogados, sushimen, aquários, águas-vivas etc [talvez isso tenha se intensificado desde o cinematográfico naufrágio de 1997 do Titanic e do clip "No Surprises" (ano idem) do Radiohead - (como se artistas dessa época estivessem em afogado conluio para melhor e pessoal no-returning processo de entrada no terceiro milênio)].
Em seu livro de estréia, Andréa Catrópa nos incita a acompanhar sua aventura pessoal – em atropeladas sentenças -, no que vem a ser trajeto de rarefeita linha central, debatendo-se e levando parte do concreto maior que a circunda, com ecos de fragrância trovadoresca, até o reencontro da fina condução de vogais soterradas pelas próprias tentativas de retorno à fonte. Pouco preocupada com desfechos morais, essa débil linha quer beatitude de saber-se ligada a algo, como num cordão umbilical que aos poucos faça esquecer a consciência de si mesma e do que acontece fora do útero simbólico.
As coisas começam com o laboratório intensivo de auto-conhecimento do outro. Esqueça o que foi dito até agora: Andréa desvencilha-se, de cara, de qualquer herança literária fácil. De maneira irônica, nada é o que parece tanto na disposição de seus relatos quanto no tom de versos convulsos.



ato compulsivo n° 3.008.011.974.
o prazer ilícito de partir ossos (mesmo que já um pouco.
apodrecidos pela chuva) - as pontas que cercam.
seus muros - a dor auto-infligida de abortar o outro,
colocar o outro no centro do palco que se
transfigura em arena para descarnar.a fala.



"não me reconheço".



Numa tacada só, num golpe de estômago; corajosa, Andréa se expõe sem papas na língua. Sua arrojada e lúdica poética rompe com a própria naturalidade para que possa desvendar antecedentes da mesma. E será quase sempre assim no decorrer do livro. Genial, ela descobriu uma descrição (em olhos lápide) que não precisa abstrair direção interior alheia (devidamente varrida) para gravar seu caminho.
As margens do auto-conhecimento transbordam até domínios pessoais do OUTRO como se uma esfarelada epígrafe coreografasse relação cujo tortuoso cruzamento ainda não permite-lhe conseguir e/ou poder distanciar-se a não ser que seja expondo e partindo ossos ilícitos, mesmo que já um pouco apodrecidos pela chuvachuva que, nota-se, não tem significado positivo por aqui, todavia inclusa no mesmo princípio laboratorial que aos poucos servirá de premissa ao próprio salvamento da inusitada rede, na qual por fim ela se afogará.
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"Surtei repentinamente numa manhã de sábado. os dentes trincados, mas os dedos flácidos.
Minha casa era afetuoso clichê, fora dela, o inferno. Eu estava no mundo há muito, era
urgente pegar o primeiro retorno e não olhar pela janela. erva cidreira, cobertor,. e um.
banho quente. de nada adiantariam, se eu não tirasse os óculos. mamãe ao meu lado,
fictícia e boa ouvinte, a face que me traumatizou devidamente varrida para debaixo do.
tapete. ovos quentes, gemada, fortificantes. meus achaques são típicos de uma anêmica.
acredito. tudo se resolverá assim que o doutor ministrar suas doses. tudo ficará melhor.
após uma boa noite de insônia. tudo estará acabado assim que eu me calar
." .



A onda de referências dos anos 1990 semi-metamorfoseia-se da onomástica às elaborações oníricas. De riqueza imagética que se permite, no máximo, abortos em flor, a meta-crítica da dificuldade humana auto-inflige com modernos signos caros a poetas como Rimbaud, Ana Cristina Cesar, Cacaso, Claudio Daniel... A despeito da influência que não carrega pastiche e/ou área social glamourizada, Andréa, querida, desculpa-se da condição de ensimesmada burguesa, tentando dialogar com um Brasil miserável e com paradigmas marxistas que, entre outras coisas, provocam suicídios poéticos.
Mais além, ibero-americana, enquanto ela vê sorriso oriental em cadela, musas são postas num muro de arrimo - que é o realismo psicológico neo-opressor, com velhas poéticas e poderosa encomenda semântica – até que seja atingido binômio refletor dum Janus noturno e jovem, que atiça o leitor de estética mais bem resolvida e porosa a descobrir traços de inocência que na verdade não existem no rito posto pelo sujeito posicionado na indeterminação.
Trata-se de verdadeiro mergulho, visto por todos ângulos, todos níveis, das camadas íntimas de arco-íris glossarial até mais abissal relativização, desenhada num quadro sinalizador, transitório, cerebral e (de propósito) aberto. O que seria claro-enigma restringe-se ao atual vale-tudo poético, sob ondas de sylviaplathiana indiferença.
Através da descoberta da tripolaridade do EU, a linha d´água se adapta. O rosto do afogado diferencia de que lado vem o touro/ a bomba/ e o corpo/ que aberto sobre a maca/ espera sua autópsia.
Maturação de precoce incapacidade, metaforicamente repleto com metáfora da metáfora, o processus de seu trabalho sobrevive, embora às vezes a pesca de submersa formação de personalidade lírica coincida em grau de concessão a um Caymmi a exortar apenas o aspecto manjado do elemento com o qual decidiu acasalar-se, curar-se.

Depois de enveredar-se nas imensidões do atlântico e pacífico, pode acenar-lhe adorável glacialidade ou retorno à superfície dos náufragos que por fim se salvam? Desistirá Andréa das profundezas? Criará músculos d´água para seguir fluvial rumo ao cânone de pós-moderna poeta?.
De um único fôlego que atravessa dias, afinal, a leitura de tal consistência heterogênea proporciona boas aproximações com a infância.
Foi cumprido o papel de documento de viagem, alternativa de identificação e admiração para o leitor avesso aos meios midiáticos enganadoramente transcendentais.
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Andréa Catrópa nasceu em São Paulo, em 1974. É doutoranda em Teoria Literária e coordenou a série de programas de rádio Ondas Literárias. Integra as coletâneas de poesia Antologia brasileira do início do terceiro milênio (6 dias, 6 noites, 2008), 8 femmes (2007), Vacamarela - 17 poetas brasileiros do XXI (2007). Mergulho às Avessas foi lançado esse ano pela coleção caixa preta, da Lumme. Alguns de seus poemas podem ser lidos aqui.