06/12/2008

antigo perfil de orkut

fui o garoto simpatia do meu colégio
tenho medo de machado de assis
chorei quando a nazaré morreu
chorei com a música "sometimes salvation" do black crowes
tenho bunda de pagodeiro
bela lugosi's dead
I'm dead undead I'm dead
sou militante
sou solteiro
profissão: vagabundo

vâmo?

.
.

♥ ♦ ♣ ♠ ♥ ♦ ♣ ♠ ♥ ♦ ♣ ♠ ♥ ♦ ♣ ♠ ♥

.

02/11/2008

transgenesis

Muito embora a treta soasse primaveril, seria difícil transferir gestão daquele frugal pseudofurto.
Eram 3 ou mais contas de luz e água atrasadas, 3 ou mais páginas de sombra pra disfarçar nada tímidas relações de tempo.
Nítida e estatística geometria foi transferindo picuinhas e tentativas de polução, estimuladas pelo idoso blush, em harmonia à noite - mais condizente com prosperidade de KY-33 no trígono das Perseidas.
À altura do clima de saia justa -televisionado pelas fendas lobistas da apuração final de nanosalmos-, relâmpagos e trovões da profecia não alteram o humor paralítico da fisionomia: toda de branco -dublando o fim de mais um beijo em Todomundo-, em tules, florzinhas, tafetás, mosquiteiros e tiara de conchas sobre a volumosa peruca de Clara Nunes.

A despistar crise ao mesmo tempo em que camuflava não só o segredo do novo ciclo, como também os euros, debaixo do picumã, deixando de expiar como louca assim que, incitada, a caravana da Crackolândia distrai olhares furtivos do Silvio Santos sobre o peito tatuado; portentosa, Penelope Jolie aproveita pra desmocosar o dinheiro e passá-lo ao calouro contíguo, Todomundo (travestido de Roy Batty). Tudo que câmeras captam é o 3° turno do acerto de contas:

__ Quando usted vai pagar o aluguel do unicórnio?
__ Assim que vosmecê deixar de manter a tradição de emprestá-lo pro voo imaturo dos teus ebós transgênicos. Não vou ficar custeando as peripécias do teu edi.
__ Roy, el pegáseo inferno está confundindo sua cabeça; até agora, pelo que jo sei, apenas suos pés saum alados.
__ Cadê a tristeza?
__ Mixqueci na espaçonave!

O 3° candidato já ia reivindicar o n° de ciganomania quando o casal retira-se correndo e translorixando baile até os bastidores.
O pré-programado pulso do novo ciclo palpita nas últimas bocas de urna de igrejas.
Desesperada pela demora da bunda e culotes, Jussarinha da Beijaflor bate cabelo sobre olhos lápide, para que a tumular cabeça abduza menos dor na contagem regressiva pra KY-33.
No estacionamento do estúdio, comadres codificavam correlação de forças da audiência laranja.
Em braile fluidez, é desaquendada alfazemada condução pra Todomundo, que cerca de 3 horas mais tarde volta do câmbio negreiro e, por sorte, calça com Penelope Jolie zíngaras pernas da corrente até a nave.
Reabilitada, sem chuca é uó - dizia Piu Piu, travestida de Maria Antonieta - mas o papo é reto e ela reitera Penelope Jolie da urgência urânica dos ovários.
Sem resultado emocional, Piu Piu coloca pra tocar uma música evangélica - o que acaba, com titânica eficácia, fazendo brotar lágrimas fosforescentes pra decolagem. Todomundo entra no embalo e batiza a primeira cédula chinesa.
Deixando de tirar cascas de feijão e milho dos dentes, Raquel Munhóz, de Chacrinha, reúne o 3° grau da melancolia dentro do cálice vermelho de cemitério.
Piu Piu dá por encerrada a trilha de Mara Maravilha, mas engarrafamentos atravancam o canto das 3 raças. Era preciso que a ronda do império aliban cruzasse com 3 graças, germinando patrulha em cão menor, pois as últimas odaras operadas mal abrem olhos da voz e cantos rosnam de raiva por não receberem flyer pra buatchy sagrada.
Apadrinhamento cósmico fermenta: idéias dentro do útero simbolista pedem que Todomundo intua alerta vermelho pro final das carreiras...

Já por dentro do esquema, extasiada, Piu Piu decide conferir cheiro de autenticidade no passaporte / Raquel Munhóz chupa bala e oferece boca a necas indigentes de hercúleos e dionisíacos transeuntes / Penelope Jolie esteriliza as seringas.

***jurisdição de altercredos***

Globinho de espelhos convexos discoteorizando: voltam a circular espinhos de luz. Perto do pico da neblina de Andrômeda, o arco íris de fósforo abraça primeira fronteira (fantasma) da (opulenta) apoteose.
Na entrada --área de alto risco--, perigo. Esqueletos eletrificam-se, contagiados por estranha alegria. A suingada escoliose não dá ouvidos às serpes espiãs: parte-se o portal de costelas. Numa tréplica de falsete 7% tabajara, miss Jolie alonga, estala e massageia guardiões da alfândega, voltando do mato com o leite condensado, como tira-gosto. Na superfície de correspondências a segunda refeição do salvador, galëre!
Todomundo planta dinheiro já carimbado pelas lágrimas no esterco da bacia tiranossáurica, Jussarinha da Beijaflor cumprimenta comparsas com abraço alfa e testa a potência dos microfones atmosféricos.

Alô alô marciano, aqui quem fala é da terra.

Cof, coff. 9% apático Todomundo liga amplificadores do satélite.

Hahahaha!
(por cima)

O reality show convalescença trava conversa com vicissitude de agulhas, perto da calcinha.
Ai ai ai, oh! Obstruindo encruzilhada: opera-se o pré-milagre!!! Mal quadris avolumam a seda preta e vermelha, KY-33 entra no greatest eclypse e Jussarinha empunha violão e rebola, frenética.

Doce e muy tocada, Raquel Munhóz leva o silicone excedente pra dentro da nave.

Piu Piu solta a pomba branca.

Atenta aos capciosos conselhos finais do novo ciclo, oh vida! como esperado, a admirável boneca nova reverencia conjuntura transcendental e bate cabeça na esquina das correspondências, truncando destinatária semântica.
O raio azul leitoso finalmente remete prestígio, batendo a mil na cúpula.

3D: transmissão começa: meio tonta, Jussarinha canta e toca Whole Lotta Love.
Fumando charuto, Penelope Jolie tenta uma última vez:

__ Usted mi perdôua Todomundo?
__ A fiadora desse perdão deveria ser vosmecê...
__ Yeah...
__ Aqui está a chave...

Todomundo lhe dá cálice vermelho de cemitério, ela se aproxima da pia e despeja o conteúdo na rósea e tesa boca do robozinho.

01/10/2008

transcendência afogada

Oficialmente, os 4 elementos fundamentais da natureza são fogo, terra, ar e água. Cada um tem sua função, grau de adaptação, combinação; juntos - nos estados sólido, líquido e gasoso (sem falar do plasma e da hipótese einsteiniana da luz) - eles tentam sobreviver no mundo, depois que a raça humana subjugou-os de tal forma que se tornou vítima de suas criações.
Agora imagine que vivemos em algum lugar, primórdio de planeta onde essas matérias ainda não se misturaram muito, como num urbanismo primitivo, hibridez flutuante... Idéias esparramam-se sem futura evolução em vista, pelo prazer no significado que engrandece uma narrativa que é o próprio processo, parte crítica de si mesma e que não prejudica o trabalho do todo, mesmo que ela chame-lhe de OUTRO - conquanto não seja tão boazinha com ele não -. Ambos confundem-se na contribuição para algo mais elevado do que discreto individualismo, atento à cromoterapia de amorfo e antigo princípio, meio marginal, regendo a história da existência.
A consciência meio sartreana de si mesma, não chegando à náusea do existencialismo, mas como que fixada na solidão – no bom sentido que esta pode construir às custas de logopéico tato às under-verdades, subterrâneas leis -, torna-se inflexível, mais importante e reveladora do que avanço tecnológico.
.Ciência, política e religião ainda não coligaram-se a intelecto capaz de exceder em qualidade e quantidade ético-verbal a metalinguística de si mesmo, disso advém o retorno ao aforismo socrático “conhece-te a ti mesmo”.
Gerando teatralidade de intransigência biográfica, dizem que a verdadeira façanha do poeta é analisar - non-stop, inviolável, como réptil, talvez um jabuti - a superfície como mero museu primitivo do homem, sempre retornando aos passos bem estudados de longa carreira, encarapuçada pela memória.
Revestido de trato contemporâneo, tal retorno seria denotado por um anfíbio que decide voltar a ser peixe, pelo fato de não reconhecer-se na superfície, não como parte daquele todo que ajudou a articular.
O desejo do pensamento humano então criou Deus para resguardar vida após a morte, o Paraíso. Comumente associado ao céu, aqui ele figura como Mar. Porém, em fase de ininterrupto e paradoxal crescimento, enquanto o EU lírico desce às profundezas do reino subjetivo, o corpo, idiotizado, segue contrário ao encanto dos cativos hipocampos de Netuno a despistar horizontalidade de relações, criando aviões, naves espaciais, eis o conflito atual da humanidade, o mergulho às avessas: qual a verdadeira saída depois do encontro com nós mesmos?.
Não é de hoje que a água vem sendo explorada na poesia, elemento tido como negativo e/ou feminino pela astrologia, baixo, que desce; sem ele não seria possível vida. Se tornando cada vez mais preciosa, água (doce), no estado líquido, também figura como respiração, vitalidade de poema bem acabado, urdido, visceral, cíclico. Talvez a previsão de um mundo sem água (ou totalmente afogado por ela...) potável esteja influenciando na reconsideração fantasiosa de sereias, filhos afogados, sushimen, aquários, águas-vivas etc [talvez isso tenha se intensificado desde o cinematográfico naufrágio de 1997 do Titanic e do clip "No Surprises" (ano idem) do Radiohead - (como se artistas dessa época estivessem em afogado conluio para melhor e pessoal no-returning processo de entrada no terceiro milênio)].
Em seu livro de estréia, Andréa Catrópa nos incita a acompanhar sua aventura pessoal – em atropeladas sentenças -, no que vem a ser trajeto de rarefeita linha central, debatendo-se e levando parte do concreto maior que a circunda, com ecos de fragrância trovadoresca, até o reencontro da fina condução de vogais soterradas pelas próprias tentativas de retorno à fonte. Pouco preocupada com desfechos morais, essa débil linha quer beatitude de saber-se ligada a algo, como num cordão umbilical que aos poucos faça esquecer a consciência de si mesma e do que acontece fora do útero simbólico.
As coisas começam com o laboratório intensivo de auto-conhecimento do outro. Esqueça o que foi dito até agora: Andréa desvencilha-se, de cara, de qualquer herança literária fácil. De maneira irônica, nada é o que parece tanto na disposição de seus relatos quanto no tom de versos convulsos.



ato compulsivo n° 3.008.011.974.
o prazer ilícito de partir ossos (mesmo que já um pouco.
apodrecidos pela chuva) - as pontas que cercam.
seus muros - a dor auto-infligida de abortar o outro,
colocar o outro no centro do palco que se
transfigura em arena para descarnar.a fala.



"não me reconheço".



Numa tacada só, num golpe de estômago; corajosa, Andréa se expõe sem papas na língua. Sua arrojada e lúdica poética rompe com a própria naturalidade para que possa desvendar antecedentes da mesma. E será quase sempre assim no decorrer do livro. Genial, ela descobriu uma descrição (em olhos lápide) que não precisa abstrair direção interior alheia (devidamente varrida) para gravar seu caminho.
As margens do auto-conhecimento transbordam até domínios pessoais do OUTRO como se uma esfarelada epígrafe coreografasse relação cujo tortuoso cruzamento ainda não permite-lhe conseguir e/ou poder distanciar-se a não ser que seja expondo e partindo ossos ilícitos, mesmo que já um pouco apodrecidos pela chuvachuva que, nota-se, não tem significado positivo por aqui, todavia inclusa no mesmo princípio laboratorial que aos poucos servirá de premissa ao próprio salvamento da inusitada rede, na qual por fim ela se afogará.
.
"Surtei repentinamente numa manhã de sábado. os dentes trincados, mas os dedos flácidos.
Minha casa era afetuoso clichê, fora dela, o inferno. Eu estava no mundo há muito, era
urgente pegar o primeiro retorno e não olhar pela janela. erva cidreira, cobertor,. e um.
banho quente. de nada adiantariam, se eu não tirasse os óculos. mamãe ao meu lado,
fictícia e boa ouvinte, a face que me traumatizou devidamente varrida para debaixo do.
tapete. ovos quentes, gemada, fortificantes. meus achaques são típicos de uma anêmica.
acredito. tudo se resolverá assim que o doutor ministrar suas doses. tudo ficará melhor.
após uma boa noite de insônia. tudo estará acabado assim que eu me calar
." .



A onda de referências dos anos 1990 semi-metamorfoseia-se da onomástica às elaborações oníricas. De riqueza imagética que se permite, no máximo, abortos em flor, a meta-crítica da dificuldade humana auto-inflige com modernos signos caros a poetas como Rimbaud, Ana Cristina Cesar, Cacaso, Claudio Daniel... A despeito da influência que não carrega pastiche e/ou área social glamourizada, Andréa, querida, desculpa-se da condição de ensimesmada burguesa, tentando dialogar com um Brasil miserável e com paradigmas marxistas que, entre outras coisas, provocam suicídios poéticos.
Mais além, ibero-americana, enquanto ela vê sorriso oriental em cadela, musas são postas num muro de arrimo - que é o realismo psicológico neo-opressor, com velhas poéticas e poderosa encomenda semântica – até que seja atingido binômio refletor dum Janus noturno e jovem, que atiça o leitor de estética mais bem resolvida e porosa a descobrir traços de inocência que na verdade não existem no rito posto pelo sujeito posicionado na indeterminação.
Trata-se de verdadeiro mergulho, visto por todos ângulos, todos níveis, das camadas íntimas de arco-íris glossarial até mais abissal relativização, desenhada num quadro sinalizador, transitório, cerebral e (de propósito) aberto. O que seria claro-enigma restringe-se ao atual vale-tudo poético, sob ondas de sylviaplathiana indiferença.
Através da descoberta da tripolaridade do EU, a linha d´água se adapta. O rosto do afogado diferencia de que lado vem o touro/ a bomba/ e o corpo/ que aberto sobre a maca/ espera sua autópsia.
Maturação de precoce incapacidade, metaforicamente repleto com metáfora da metáfora, o processus de seu trabalho sobrevive, embora às vezes a pesca de submersa formação de personalidade lírica coincida em grau de concessão a um Caymmi a exortar apenas o aspecto manjado do elemento com o qual decidiu acasalar-se, curar-se.

Depois de enveredar-se nas imensidões do atlântico e pacífico, pode acenar-lhe adorável glacialidade ou retorno à superfície dos náufragos que por fim se salvam? Desistirá Andréa das profundezas? Criará músculos d´água para seguir fluvial rumo ao cânone de pós-moderna poeta?.
De um único fôlego que atravessa dias, afinal, a leitura de tal consistência heterogênea proporciona boas aproximações com a infância.
Foi cumprido o papel de documento de viagem, alternativa de identificação e admiração para o leitor avesso aos meios midiáticos enganadoramente transcendentais.
.




.
.
Andréa Catrópa nasceu em São Paulo, em 1974. É doutoranda em Teoria Literária e coordenou a série de programas de rádio Ondas Literárias. Integra as coletâneas de poesia Antologia brasileira do início do terceiro milênio (6 dias, 6 noites, 2008), 8 femmes (2007), Vacamarela - 17 poetas brasileiros do XXI (2007). Mergulho às Avessas foi lançado esse ano pela coleção caixa preta, da Lumme. Alguns de seus poemas podem ser lidos aqui.

16/07/2008

saindo das ruas

.
__ Com licença moça, você já conhece a revista Ocas"?
__ ... tou atrasada pra reunião...

Era uma noite de lua cheia: da rua Augusta podia-se presenciar rotineiro happy-hour universitário prolongar-se em alcoólica paz; sob encanto de desconhecidos (e bons) olhos, alhures, Ricardo reapareceu em sua no-peu ordinaire esquina. Na primeira vez ainda não havia ameaça homeless, embora alguns albergues tivessem sido devidamente mapeados, sendo o Arsenal da Esperança descrito como menos ralé. Nesse segundo encontro já ciceroneava na boemia paulistana os pedidos de uma ex-ficante da ong atitudE!, portanto não foi por causa de sua vinda que essa época não foi fácil nem feliz para dividir aposentos com desconhecidos como ex-presidiários, aleijados fim-de-carreira, antigos figurantes da globo, michês decadentes e demais malucos abandonos senis.
A primeira menção à revista foi transmitida aos ouvidos do futuro chão de um já tradicional psicodrama. Percebia-se o fôlego de incentivo oculto por trás da divulgação do material, não que se tratasse de um típico brainstorming ou manjada maneira de usar mendigos para distribuir nova idéia de riquinhos revoltados (a favor dos menos favorecidos), tudo em sociedade surda pro espectador que desceu ao sub-solo para melhor conhecer aquele num primeiro momento "neo-usurpador" project.
Altas horas e Ricardo, sem nunca perder a paciência e boa vontade, explicou mais uma vez do que se tratava aquilo que certa vez Soraya, Jeremias, Frei David e Marrocos disseram não ser uma ong e sim uma oscip. Na verdade, além de ser uma organização civil de ação social, "a revista nasceu do encontro de pessoas e grupos que articularam desde 1998 para viabilizar a implantação de um projeto de geração de renda e a abertura de um canal de expressão para a população em situação de rua. O primeiro encontro para a discussão da idéia aconteceu em São Paulo, na sede da Rede Rua. No Rio de Janeiro, a primeira iniciativa foi apresentada na PUC-Rio, como projeto piloto, em janeiro de 1999. Em outubro do mesmo ano foi feito contato com a Rede Internacional de Publicações de Rua (INSP), que indicou o projeto Hecho en Buenos Aires, na Argentina, para a troca de informações. São mais de 80 publicações filiadas à Rede Internacional de Publicações de Rua - International Network of Street Papers, INSP - signatárias da Declaração das Publicações de Rua (The Street Papers Charter, na internet em http://www.street-papers.org/).
Ocas" é uma revista vendida exclusivamente por pessoas em situação de rua, que têm nesse trabalho a chance de mudança efetiva em suas vidas. O resultado decorrente da venda da revista - ficam com 2/3 do preço da capa - permite que estabeleçam novos contatos, ampliem seu círculo de relacionamento e dêem passos rumo à autonomia financeira e saída da situação de rua. A revista tem temas culturais, políticos e sociais, com vendagem executada exclusivamente na rua. De periodicidade atualmente bimensal e de circulação, a princípio, em São Paulo e Rio de Janeiro, a publicação também reserva espaço para a expressão das populações em situação de rua e aborda problemáticas relacionadas ao tema. Com essa proposta, ao mesmo tempo em que coloca o debate na agenda da sociedade, a oscip (organização da sociedade civil de interesse público) promove a autonomia financeira e fortalece os vínculos comunitários das pessoas em situação de rua.
Após tomarem conhecimento sobre os objetivos do projeto, os vendedores (maiores de 18 anos) recebem uma credencial e 10 exemplares gratuitos para iniciar o trabalho. A partir disso, passam a comprar cada exemplar por 1 real e vender por 3 reais."
Chegando à sede do Brás, a alta cúpula lhe cede um gravador de voz e câmera fotográfica para registrar a estória de cinéfilos dorminhocos. Nas primeiras reuniões de sábado quem manda e desmanda na revista são moradores de rua e/ou sujeitos em situação de risco social. Cada elemento é imbuído de trazer mais vitalidade afim de prosperar tarefas de inclusão. Nas reuniões o clima não é gelado e não há adversidade e/ou desigualdade entre ricos e miseráveis. As cartas são postas na mesa, analfabetos têm oportunidade de aprender uma boa soletração de tímidos textos. Não-falsificadores votos são feitos na hora em que uma psicóloga vinda dos pampas fuma num cachimbo e o Snoopy expressa intenso desejo de entrevistar os dubladores do Chaves & Chapolin Colorado, nem que isso seja a última coisa que ela tenha que fazer na vida (!) [onde anda o Snoopy? A última aparição de sua dentuça alegria foi notificada no albergue da Baixada do Glicério (onde é possível ser expulso em se mandando descasos de funcionários à puta que pariu)]. Deduzidos de desacordos anti-formais que não surgem do nada numa pesquisa com universitários das UNIs da vida, há filmagens de espontâneos preparos de evolução/regressão. Se alguém pegar no seu pé e/ou apelidar-lhe de retardado, certifique-se de estar sem uniforme quando tiver de acertar as contas. Não há desacordos muito menos brigas sangrentas na sede. É tudo alegria e curtição, tudo que falta de remorso sobra em festejo, regado a muita manguaça e comidas típicas mineiras na poesia da Pilar... Se Josoel misturar psicotrópicos com cerveja a Maria Alice o advertirá dos efeitos colaterais transatos. Só o que vale nas festas é o lado bom e leve das coisas benquistas nos recitais do sarau do Espaço Cultural do Zé.
Ainda na sede, reencontrando a temível condutora do psicodrama, é possível conferir como se faz uma boa distribuição de energias entre vendedores... É preciso saber observar - disse a charmosa madame, sabendo como ninguém olhar no fundo dos olhos mais reclusos sob pálpebras da vida (marginal). Ex-alcoólatras, ex-flanelinhas e (i)migrantes disputavam a atenção da "não-cruel mãe de rua", ilustrando o perfeito mosaico de perdedores oficiais da cidade grande (TODOS já conhecidos por este que vos escreve) que, reergendo-se, são captados para digno treinamento. Aprende-se a vender a revista sem dizer que ela ajuda moradores de rua, pelo menos num primeiro momento de interação pois, segundo fontes de boca de rango mais seguras, a tentativa de compadecer clientes não credita a entidade com 23% do respeito desejado; invariavelmente dedos apontam para relógios enquanto lentes de contato verde-água semi-desfocados olham pro nada, tentando despistar de vista a cara de cachorro/cadela abandonado(a) do rosto do(a) vendedor(a), através de fugazes recusas, contrárias à mais bem intencionada (falta de) salivação. No Masp até ouvem um pouco o bordão, mas é na frente do Centro Cultural São Paulo que se aprende a não falar sozinho e/ou mandar à merda quem não pára pra ser malhado, proposta infalível, pois os clientes tornam-se mais simpáticos e corteses quando tratados com igualdade... É claro que é proibido usar crachá quando vosmecê decidir brigar com um vendedor de poema que se acha dono do pedaço; tem também aquela mulher que mede a pressão, entrevistadores do Ibope, artesãos, fora pipoqueiros, a fofão e seguranças que confundem privado com público nas calçadas (não mande o presidente do CCSP enfiar pimenta no cu). Urge sobretudo boa entonação pra render os primeiros rangos sem valium, já que nos albergues das pastorais judaico-cristãs é de praxe aprender a dormir com um olho aberto e outro semi-onírico (infantis r.e.m.s de Brasília costumam piscar nesses recintos...); os pesadelos geralmente são protagonizados por post-assassinos e/ou ladrões que penam incansavelmente no subconsciente de impunidades policiais em sarjetas adjacentes ao Pedroso. Ingressando no mundo Ocas" dá pra aprender a jogar futebol com o incentivo técnico do Pupo; porventura muitos vendedores-jogadores viajaram para copas mundiais de moradores de rua - decisões finais já ocorreram na Dinamarca e África do Sul, nesse ano a partida será na Austrália. Atores aspirantes e/ou amadores podem receber aulas com a trupe do Teatro do Oprimido; também tem aulas de informática e incursões pra FLIP de Paraty. Os mendigos mais nouvelle vague surpreendem-se com o discurso cultural dos vendedores mais nego véios, alguns jornalistas, outros estilistas; no entanto os comemorados "tudo ao mesmo tempo agora" são mais confirmados colaboradores. Há um clima de competitiva harmonia pelo carinho da Pilar, apadrinhamento camarada e oOoôoOos do Zeca, nunca desistente reciprocidade do Ricardo, filosofia de botequim do Josoel, experiência de vida e responsabilidade do Marcos - que controla as vendas da revista -, tem até vendedor graduando em química em universidade pública.
Num belo dia de abordagem dos alunos de direito da USP, uma menina do DCE perguntou se a Ocas" tinha contato com o que ela chamava de "líderes de rua" - não apenas os caras do PCC, Comando Vermelho, Gaviões da Fiel, Cyber Cangaceiros e demais brandas-facções terroristas-tupiniquim. Segundo ela, só a violência acaba com a violência, só uma ação genuinamente de massas unificadas apartir da base mais baixa e dialogada com lumpem-proletariados poderia suprir a necessidade não-eleitoreira de um entrismo apartidário. Mesmo concordando com o aspecto conflagrador de sua nobre missão, a melíflua menina de cabelos caramelo de pontas louro-encaracoladas, diferentemente dos 91% que passam rasantes à oferta do produto, comprou a Ocas" e desistiu de articular um enlace de caráter inter-contribuitivo com organizadores (muitos deles alunos da mesma faculdade) de proposta de mudança mais miscigenada. Segundo as mais em voga elucubrações trotskystas da universidade em questão, há um desmembramento geral das táticas populares que enfraquece a neo-esquerdalha filha de 40 anos de acordos espirituais semi-clandestinos assinados em presídios e calabouços do DOPS. Será que a menina caramelada sabe que o poder paralelo está a engatinhar estagnações mais s/nossaum than CPIs-passatempo?
Aspirando novos ares, estourando a ruptura imperialista ou não, transigências de consciência mais relutantes, filiando-se ao "cada um por si" em grupo, encontram horizontes-possibilidade no Rio de Janeiro sem que o rapa se preze à demasiada agressividade de não-finas expulsões. Albergues oferecem oportunidade de emprego, dá pra dormir de bouwa nos mocós da Mangueira e São Cristóvão; mas é na Ocas" que toda uma recepção fagueiramente familiar disponibiliza mecanismos de auto-transformação aos batedores de rango do restaurante Garotinho. É tão bom trampar por lá... Em frente às celebridades do Cine Odeon e demais pontos de venda o ar é fresco, a orla do Flamengo e da Glória oferece boas desculpas pra refestelantes cochilos pós-leitura obrigatória do vestibular doutra cidade. No bairro de Santa Tereza tiroteios das favelas vizinhas são abafados para a composição de primeiro poema pós-lágrimas dum retiro espiritual, tudo em meio ao abraço de repleta natureza. Na sede eles tiram foto pra carteirinha e o click registra inesperado momento de dentes acavalados... Os vendedores são todos sangue-bom e vosmecê pode ajudar um deles a conseguir vaga pra não dormir numa fazenda comunitária; é tudo surpreendentemente apaixonante, dourado... Preta Gil e Bruno Gagliasso dão gratuitos closes em Ipanema enquanto Bentinho é chifrado, chegam os paparazzis e vosmecê sai na capa da imprensa marrom... ah... nada como um legítimo açaí na tigela e/ou suco de clorofila que gentilmente esquecem de te cobrar (raridade em se tratando de cariocas); uma balada-show-rave com Cordel do Fogo Encantado e vosmecê dançando com Camila Pitanga e Leandra Leal - tudo em menos de um mês... Os palavrões vão cedendo lugar a escancarados e trincados sorrisos, que aos poucos vão retorcendo, arregaçando e impregnando lábios inferiores pra aparição de gavetudos arraxtuix de sotaque. De volta ao terminal Tietê, a morte. A pressa.
Só mesmo um bom e velho filme hippie na Cinemateca e/ou luz silenciosa pra recuperar o zeitgeist recém abandonado duma fuga #3 pois, sendo esquecido o livro de amiga-atriz no armário do CCSP, o regresso teve de despertar no coração do distante vício por um ar superpopulosamente resignado às cinzas pombas do sufoco... Eram dramaturgias de Plínio Marcos? Ou Bukowski?... Bom, volta-se a malhar na academia do Garrido, fazer terapia em grupo e reobter permissão pra tomar banho na casa de transformista não-umbandista muy solícita às indomesticadas queixas de los más olvidados do Largo do Arouche. Arrecadando cerca de r$60,00 com diárias vendas da inseparável revista (vosmecê será pra 100pri lembrado e chamado pela alcunha de Ocas"), pode-se dar ao luxo (sic?) de pagar o cursinho popular da Afrobrás; voltar a comer saboroso rodízio de sushi da Liberdade num restaurante onde a turma do circo é recepcionada sem ser discriminada; um Tuc´s por r$ 0,50, raiz forte, leite de soja... Na locomotiva do Brasil é aconselhável ter muitos e diversificados compromissos pra não bater ponto todo dia com Soraya no café da manhã do Penaforte e nos também for free chás de canela da paróquia interior do largo São Francisco, sob auspícios da irmã Catchusca (freira cantora fã de Cássia Eller) e encaminhamento de novos albergados by Gertrude Stein, assistente social loira de olhos azuis semi-cegos e sorrisos sinceru´s.
Aos poucos a carreira de poeta vai sobrepujando a de indigente com boa causa, ou vice-versa, numa tradução livre... É possível vender revistas na praça Benedito Calixto e perguntar pra Marília Gabriela se o namoro com Gianecchini era de fachada e/ou examinar se há traços de passado groupie através de rápida conversa com Clarah Averbuck; depois o sujeito não pode dormir no curso de análise poética do Marcelo Tápia na biblioteca Alceu Amoroso Lima - oficina essa cuja influência trará à tona observações fluido-concretas a respeito do aparente conteúdo de poemas como "liqüidificador" e "ar condicionado". É vocação/talento/dom para a arte a válvula de escape entre infinitas oportunidades a um espírito anarco-cosmopolita? Ou a militância transcendental foi pra liga profissa sem aviso prévio? O que na verdade rende novas amizades fictícias pode ser desculpa para voltar de vez ao batente da hiper-exposição. Na rua rola muita troca de informação, aprendizado com metafisicu´s 69´s também. Futuros famosos de índole mais pública do que atuais dirigentes da nação te oferecem uma parte da vida e vosmecê poderá dizer que um dia eles estiveram em situação de risco social, veja bem. Maitê Proença e Lobão são testemunhas sem alzheimer que confirmarão passado sofrido que justifica um enraizado sucesso. Gravem o nome dos vendedores, eles prometem despontar num movimento verossimilhantemente transmaloquêro, a confirmar.
Amanhã será um novo dia alto-astral, é preciso tirar muquiranas e piolhos de galinha do leito público; tomar bom banho de descarrego para uma libertadora limpeza espiritual; recarregar o celular; desprorrogar compromissos; lavar roupas 18% mofadas, meias chulezeintas, mudar-se pela 44ª vez... boa noite...

__ ...brigada moço, soy una seguidora do Jamelão, boa sorte.
__ Viva forever...
.
.

video

11/07/2008

impressões interiores

Quem era aquele moço semi-nu na resenha da Mix Brasil? Poesia ainda era algo estritamente diletante antes que meu primeiro e-mail lho fosse enviado, solicitando seu trabalho. De vez em quando eu recebia edições independentes dos peculiares versos que, agregados a escritos inéditos, culminaram no livro "Poesia Gay Underground: História e Glória" - lançado pela coleção da DIX editorial, da editora Annablume.

Como todo bom artista, biográfico, ele tem estilo às vezes elegíaco, ou escatológico...

Foi no ano de 2006 que comecei a acompanhar sua paidea interior de personalíssimos frames. Procurei sempre não me ater apenas a seu aspecto gay, pelo fato d'eu não escolher preferências culturais segundo rizomas classificatórios que emaranham patrimônios intelectuais de maneira que muitos leitores deixem de considerar material de qualidade. Hugo Guimarães perpassa o gênero LGBT com uma complexa designação narrativa, bem resolvida, objetiva e pouco barroca. É nesse ponto que, provando ser um poeta que transcende em vida - segundo ele próprio diz em um de seus poemas - ele classifica e modifica as coisas ao seu redor, sempre atento ao que deixa guardado para um documento futuro, quando os signos em questão estiverem pasteurizados no resultado final do leite de suas ruminações, mesmo que ele diga já ter bebido todo o conteúdo possível...

Sua divertida e aderente maneira de expressão pode ter seu lado mais profundo despercebido. O que ele tem de tradição e ruptura é uma voz blasé, de beesha ativa (literariamente falando), decididamente pragmática - nisso semelhante a da portuguesa Adília Lopes; voz essa que, sempre rebelando-se contra cada verso anterior, surpreende e enterra uma idéia que nem chegou a esfriar, embora ainda formalmente ligada à proposta geral do corpo do poema (93% das vezes uma mini-estorinha).
.





"Eu pus uma garrafa no meu cu
Para se uma mente suja tentar
Dizer alguma merda
O som morrer.

.


Meu cu viajou para um lugar longínquo
Eu disse que ele era um planeta morto
Mas agora eu digo que ele só está em processo de beleza
Ecoando, sozinho e lindo."

.
..
.

Sem prejudicar a compreensão da leitura, a duração dos poemas reflete o suicídio involuntário da moral, como se estivesse de cabeça pra baixo, aquilo que uma vez o poeta disse ser impressão interior é na verdade a derrocada de arquétipos aceitáveis em uma sociedade hipócrita. Como sob uma pele de pobre mística, que vai sendo arranhada e marginalizada, vemos o esqueleto de sua libertadora, construtiva rima interior, bem-humorada e jamais fosca. Nem mesmo seus pais escapam, um tema recorrente, como se estes fossem os filhos, analisados e redirecionados, sem pudor, a uma superação trágico-cômica que usa e abusa do Édipo, ao longo de raríssimos constrangimentos. Resolutamente lamentado, o patriarcalismo é visto através de fracassados sujeitos sob um céu de estômago. Hugo está longe de se sentir culpado por um amor mal-consumado.
Nessa particularidade o artista mais do que nunca demonstra que, embora ainda muito jovem, já está acima de qualquer suspeita formado em base firme. A problemática familiar não tem a gravidade sugerida e sutilmente camuflada nos dramas pessoais que tanto adoram explorar e (semi) divulgar relatos da vida real no labirinto do desejo do ego. O amor é tratado em diversas camadas, (como nos graus de 1 a 5, segundo a psicologia) Hugo Guimarães não só sabe que todo homem tem tendências homossexuais, como também ri e cobra por isso. O tesão mais enrustido não lhe escapa, sendo arrombado e repercutido em todos os outros teores sexuais ainda idealizados, porém já antecipadamente fadados em seus amantes.


.



"Pit boys
Vão me espetar numa cruz
Vou gozar mais
Ou menos?
"
 
.

.

A frustração não deixa-se seduzir por um alegre pessimismo, saudável: nesse ponto encontrando uma espécie de iluminação nietzschiana, estabelecendo um lugar comum aos famigerados e ridículos apelidos a um derredor de ratos, TV, sadismo, peixes, perspicácias dos intuitos aspirantes ao sucesso... tudo visto por olhos que, sentados e tranquilos, como num trono, vão ordenando o desfile das ilusões rumo ao abismo.
Poderia ser um bestiário fisiológico a contribuição de seu chocante álbum de imagens. Segundo o que já disse uma análise anterior, seu bom gosto não crê na etiqueta culta e ascética. Sendo almodovariano, inusitado, ele cria culinária nova.

O sabor e o peso do concretismo é seminal, gelado, levado nas costas, quando ele não está a doá-lo aos garotos ao contrário (falsos héteros); drenando, secando e petrificando-os o poeta se vinga dos baixos graus de homossexualidade com uma fina malícia subtextual às coisas mais prosaicas e/ou rotineiras, como um simples chek-up.
.

.


"Eu disse à mama 'tchau' e ela disse 'boa sorte'
Eu fui ao médico e ele era lindo
Ele era gentil, ele tocou meu joelho
E eu disse 'quer casar comigo?'
Ele estendeu sua mão e me disse que a vida é linda
"


.

.
.

Se vemos o mais alto grau de afetação típico das bibas que freqüentam a buatchy A Loca, Del Candeias poderia cair de amores e introduziria o ainda pouco conhecido poeta no mundinho literário em uma jornada pelos tipos mais bizarros da noite urbana...

Seu lado espiritual também é exercitado, andando com um "cavalo no pescoço" - Platão lhe segue, todo arregaçado. Abusando e logo descartando as figuras de Jesus Cristo, Lúcifer, Bob Dylan... Todas suas influências o acompanham de modo pouco óbvio, tanto é que sua escolha por um cardápio mais carnal e auto-narrativo oferece um passado literário, como em filmes de terror e rock n' roll, apenas na forma de mera colagem contribuitiva, entendendo o "cavalo" no sentido nagô/iorubá/caboclo sem explorar total uso dessa entidade em pastiches psicográficos de um paladar lingüístico já inadequado e rapidamente arcaizante das escolhas e montagens imagéticas exteriores.

Ocultando e digerindo os já manjados mecanismos de sistematização da vida poética em um novo, pós-moderno e desbravador EU lírico, trilhando uma promissora e renovadora voz que, tendo rompido até com seus pais, é acompanhada na sua busca no decorrer do livro, aqui não há a simples e recorrente falta de escrúpulos e fé: ele vai além da formalização de acidulantes paganismos estéticos, a desenvolver desse modo uma doce crueldade no ponto G para o sincero envolvimento meta-pessoal com o leitor, afiado na perfilação de elementos e estados de matéria, devidamente assimilados e citados ao meio de uma proeza orgânica de relacionamentos brutos.

Além de ter a herança artística no pescoço; o óleo no ar; o cérebro de ar; o rato no cu; o cu verde; o já comentado sêmen de concreto; a vagina nos olhos; os joelhos secos; guitarras masturbadas; bonecos de lama; junto com os garotos ao contrário e os pit boys aparecem os garotos migrantes, os garotos pop, cocô; a história do pau...

Há de se notar também um clima teatral em suas questões e jogos de relação fetichista, os heteros e o mundo normal são vistos por um crivo de observações neo-rodrigueanas, deixando passar apenas os segredos sexistas (-por um triz-) e as despóticas-afetividades, esquecidas de bom relato há tempos na literatura brasileira; enquanto a maioria dos poetas insiste e esforça-se pra esconder seu lado inadequado, ele faz questão de armar cenas que exageram periculosidades sentimentais com uma mordacidade que Ana Rüsche ainda não foi capaz de exprimir, prestes (e para a alegria das diferentes opiniões) a desfazer-se perante a bondade pueril de aguardada aproximação alheia...

.
.


"Reage meu assalto
Aperta meu saco
Eu escovo seus dentes
E misturo pasta quente
Quase caindo da sua gente
No teu punho tem corrente.

e aperta minha mão
Aberta minha mão
.
.
Eu vou entrar
No seu lugar
"
 
.

.
O que consta parecer uma rima óbvia e fácil é desculpada pela distante verdade; perto dele ela é recebida com carinho e com a possibilidade de transformação que todo espírito aberto às solidões alheias pode aceitar, lançando à extremidade de seu pensamento trocadilhista uma maleabilidade de relação com o outro, a ressaltar assim pontos positivos em vantagem à poesia trancafiada das geografias abstratas, que não dispõe de saídas em um mundo pessoal penoso, exagerado, glamourizando a dor. Por isso Hugo Guimarães não se afoga em típica afetação, não sufoca sua riqueza vocabulária com um vazio exteriormente existencial. Lendo todo o livro nota-se uma progressiva melhora e abertura do gênero em que ele escolheu lançar-se.
.

.


"É noite na água
Eu odeio salva - vidas
Sexo não salva
A queda de uma rocha no mar
"

.

..

Tomara que ele não ceda à armadilha de cair na própria caricatura, de maneira que possa continuar evoluindo sua arte.

http://hugorguimaraes.blogspot.com/

CopyLeft 2008 by Andróide

30/05/2008

linguagem bege


Aula de poesia contemporânea: cada aluno deve trazer poesias que admire, de 1960 pra cá. Não pensei duas vezes quando levei "Pintura expressionista", poema que dá uma breve idéia de sua proposta e parece ser resposta a poemas que uma vez lhe enviei. Estavam no páreo Adélia Prado, Orides Fontela, Caio Meira, Paulo Ferraz, Claudia Roquette-Pinto...
.
Minha poeta foi a primeira a ser analisada. Érica Zíngano deu a partida, dizendo-se não convencida. Começo a ficar nervoso, replico-lhe que minha escolhida não utiliza violência branca, e sim linguagem branca. Érica publicou poemas na revista ZUNÁI onde não só usa, mas menciona uma violência silenciosa do mundo. Me explico: a linguagem de minha ré lembra-me uma pureza descontextualizadamente diurna/ teologicamente cuidadosa/positiva-racional, diferente dos processos de sucinta secura sexy da Érica (também gosto...) - que, contrariada, recomendou-me um filme onde o paraíso na terra é todo branco, inclusive em prateleiras e produtos de supermercado, e não deu-se por vencida. Assim, para o meu azar, os demais entraram no embalo. Andréa Catrópa, ministrante do curso, disse que cada poema deve refletir uma vida inteira, um mundo, às vezes isso resulta em prosa poética, o que eu admiro e encontro em seus poemas, de uma temática, linguagem e posicionamento diferentes dos de Beatriz Bajo. Tendo seu blog sido lido por ela, que disse ter visto em Beatriz a postura da geração marginal na forma direta de lidar com o leitor, eu concordo se isso significa o poeta que, completo, se coloca na vida. Porém, meio escandalizada, Andréa ainda disse ser masoquista as combinações da palavra "esquartejada" e a frase "tirar-me toda a pele" no corpo do poema.
.
Será que há uma linha moral vigente nas atuais diretrizes da crítica brasileira? Se formos entender a poesia ao pé da letra, não só Beatriz, mas uma grande leva de bons poetas estarão promovendo um holocausto... Poetas são apenas serial killers, malucos, bebês chorões, frustrados, vampiros? Uma psicóloga, colocada, entrou na onda, mas foi só eu prestar atenção em sua análise para que seu tom clínico fosse metamorfoseando a um discreto elogio, à revelia, desistindo da idéia de deitar minha poeta em seu divã. Victor Del Franco disse que minha admiração poderia estar equivocada. Os demais alunos limitaram-se a vagos palpites, talvez sufocados pela opinião geral.
Onde eu fui parar?
.
Talvez rindo de tudo isso, com uma voz elevada e decidida, sem acentos extra-dramáticos, minha "esquartejada" guarda suas armas brancas para um rubro desmazelo sobre o leitor. Não há preocupações e impressões demasiado exteriores e/ou contextuais na poeta do amor. É a essência X forma, o conteúdo X o vaso.
.
Meus colegas certamente perderam a chance de descobrir seu sentido mais completo em poemas como "Sempre estivemos", "Tac táctil", "Que Truque!", "Água guardada" - os quais confirmam que ela não está de brincadeira.
.
Beatriz nasceu com o fêmur deslocado da bacia e usou um aparelho que dificultava sua locomoção em boa parte de infância, o que a estimulou a começar a escrever trovas, letras de música e textos dramáticos já com 9 anos de idade, passando o tempo que impossibilitava maiores movimentos do corpo. Nasceu em São Paulo, tendo se mudado ainda criança pro Rio de Janeiro (seu sotaque é carioca, hehehe...), onde graduou-se em letras pela UERJ. Atualmente é aluna especial em mestrado na UEL e professora; contribui em diversas revistas eletrônicas como poeta, resenhista e contista, tendo sido vice-ganhadora de concurso para antologia poética muy respeitável. Ela diz ter sido fundamental para sua formação o filme Sociedade dos Poetas Mortos e uma oficina de poesia que fez, ministrada por Marcelino Freire.
.
Conforme os poemas que publica em seu blog pelo pseudônimo de Linda Graal, depreende-se que o sujeito de seus devaneios não posiciona-se como vítima: têm-se a impressão de algo sublime, livre, nem urbano nem rural. Soltos encadeamentos de pulsantes e transbordantes imagens sobrepujam uma tímida biografia. A transcendência é ponto de partida dos primeiros versos de sua personalidade, e não o objetivo final; assim não nos é permitido verificar a ossatura de seu lado B enquanto ela vai escolhendo as palavras que veste e dá vida, processo que geralmente acontece nos poemas que dão mais valor à experiência.
.
Sua linguagem não é bem branca, diria que é bege, mistura de pele, areia; desmaio de uma maturidade serena; equilíbrio, independência, elegância e controle emocional; crepúsculo espargido sob as franjas de um horizonte-possibilidade de nacaradas conclusões. Não somos agredidos pelas "educadoras" e às vezes brochantes imagens atuais. Sendo assim, suas palavras agradam, sua fina superação poética esboça alusiva resposta (sem sair de seu mundo pessoal) à profusão de vanguardas e grupinhos contemporâneos em "Ave mocinha" e também no abraço final de todos poemas, fardo encarado como exclusivamente íntimo em seu modo de conversar com um interlocutor sempre presente, ora recebendo parte do "mal-estar" da atualidade, ora distante - porém compreensível em suas ansiedades:
.
.
.
.
"Enroladinha
preparo-me um cativeiro
gaiolas de goelas
de engasgados amantes
querendo seio beijo bico"
.
..
.
.
Não sendo permitido oprimir a bem-resolvida visão do veni vidi vici - sensação que acompanha a fisionomia dos valores de seu EU lírico - a impressão que temos da maneira da poeta encarar a vida não diria que é marginal, mas sim à margem da relação com o outro: verdadeiro mote de sua triunfante e planadora pesquisa.
Atuais poetas poderiam julgá-la de alienada, inatingível. Todavia seus objetivos não são didáticos, sua delicada e inovadora verve que "come borboletas" passa a impressão de estar em um nível onde o intuito das coisas que a cercam não representa novidade:
.
.
.
.
.
"Assim que se deitou
Sobre meu pé tão delicadamente
Trouxe-me algo de fenda
Algo de talho, latente
Entre os batentes da minha janela
Adentrando pelos basculantes
Roendo as sementes"
.
.
.
.
.
Exatamente por isso, arrisco dizer que Beatriz é uma poeta que vai "ficar", esperta o bastante para desconfiar de duvidosas preocupações por uma poesia mais popular e inteligível aos grandes meios, às vezes sem a alma de suas formas abertas, contrastando com uma lógica mais sentimental e restrita, à espera do devido reconhecimento, que não tardará em chegar.
.
Feminina, despretensiosa, inebriante e cristalina, sempre trilhando o caminho da simplicidade, sua criativa metafísica é ligada por abundantes conjunções, único e aparente lugar a uma dura realidade que não a encanta. Cada vez mais despedindo-se de ingenuidades decorativas e/ou discursivas, seu verdadeiro diferencial é mais baseado no arranjo de sobreposições imagéticas do que em indefinidas aventuras sintáticas:
.
.
.
.
.
"é alma
a febre de corpo
temor de esquecimento
é alma - junto com a tua -
o vôo cai em delírio
@laúde como abraço
leve - em lava - alma
a deslembrança é o corpo a mentir a febre"
.
.
.
.
.
Inquestionável, o que se vê como obra incompleta e ambulante é vista de cima, sem que se perceba, por olhos distantes e críticos, não se esforçando em convencionar um encontro de verdades. Como possível amigo que, inviável o contato, se prende em palavras de impacto, o amante e o amado recebem mais e mais confissões do desterro poético que, recuando, meio bruxo (no bom sentido), não faz nada para recuperar e/ou repetir um tempo, um caso perdido.
.
Sem performática concatenação entre poemas semi-livres, porém sempre com começo, meio e fim bem urdidos - de singulares e às vezes estreitas aliterações e assonâncias; fluidos concretos em rima; atos funil - sua mensagem, romântica, crê na forma estabelecida no sentido da criatividade interior, sendo salva pelo que lhe falta e irritando quem espera algum poema denúncia ou lamúria por demais óbvia.
Aindo digo que trata-se de algo terapêutico, que faz bem mesmo, é uma leitura agradável e muy pessoal, um brando roubo de fôlego: verdadeira meta do poeta lírico, há muito tempo esquecida.

17/05/2008

estamira



"(...) Enfia o farol na buceta.
da puta-mãe de vocês.
no cu da puta vaca.
da tua mãe-esgoto.
.
Sou eu aqui.
dormindo na rua.
saia verde camisa preta.
Todos precisam de mim".



.
Semana de comemoração do dia mundial da saúde mental: algo assim marcou evento que me levou a chorar de novo pela dama do apocalipse.

Lançado em 2004, ano Xtranho, o documentário de Marcos Prado veio à luz junto com novas propostas de políticas públicas pra luta antimanicomial, e ganhou vários prêmios nacionais e internacionais.
Embora tenha sido visto pelo aspecto da "pobrologia" segundo crítica da revista que dizem ser "indispensável", o filme tem méritos inquestionáveis para tapear não só a cara do público não-marxista e psicólogos mal resolvidos - em sua maioria realmente não muito a favor de trabalhos-denúncia.
Visões únicas de certo não dialogam com o critério pelo qual adesivam opiniões comerciais na hora de julgar um trabalho tão bonito.
O verdadeiro objetivo do filme vai além do simples relato das agruras dos menos favorecidos pela sociedade excludente dos espertos ao contrário...

Arbitrariedades nas quais a mente humana desculpa a dor estão na miséria, na loucura e na solidão, sem escolher classe social, e continuando à espreita de solução formato homem, positivo, par de seus anseios por justiça....
Arte não precisa redundar nas mesmas e velhas problemáticas para mostrar a beleza de uma senhora de 60 e poucos anos...

Catadora do aterro sanitário de Jardim Gramacho, Estamira, filha de astros positivos, passa seu tempo entre o lixo produzido pelo Rio de Janeiro ao som de canção de ar pentecostal dolorido, enquanto urubus disputam detritos sob forte ventania.
Ela começa seu dia-a-dia: sai do barraco toda limpinha pra trabalhar, percorre longa trilha de chão batido, pega o busão, veste suas roupas de serviço, mais à moda bicho, assim começando seu trampo.
Apresenta seus amigos, seus respectivos cachorros. Senta no seu mocó habitual, fuma um cigarrinho descansada, sorri, e começa a se apresentar.

Embora não pareça, ela toma cuidado com as palavras que diz: Augusto Boal se encantaria com os monólogos de sua sabedoria, de um raciocínio extravagante, capaz de levantar questões que mexem, que comovem o hipócrita escondido em cada um que se julga "normal" dentro de sua felicidade burra. Ou no mínimo Estamira desperta risos de nervosismo, como quando brinca com a seriedade do que diz, abre uma cervejinha, diz "cadê meu capeta?", a praguejar contra as pregações de seu filho evangélico...

Perdeu a mãe, filha de astros negativos, em um hospício... Casou-se com um homem que não tardou em maltratá-la na medida certa para que se revoltasse psicologicamente e fugisse do FBI. Mas uniu forças para não cair no mesmo destino da mãe, e debandou-se pro lixão, lugar onde encontrou mais chão para que suas idéias proféticas não se perdessem no ar infértil das atuais entidades brasileiras. É bem sabido que a vida em sociedade impõe duras condições a um espírito selvagem. Estamira escolheu a liberdade...

Alternando entre momentos preto e branco y coloridos, a fotografia do filme assume papel de resgatar o encanto das coisas baixas, ditas feias, inadequadas, chocantes. Mas o que mais vale a pena é o discurso de Estamira: segundo ela o atual mundo está totalmente perdido devido à violência das armas brancas dos trocadillos (trocadilhos: loucos diplomados) - que se aproveitam de status social mais prestigiado para transferir o peso de suas consciências em um mundo freudiano de chantagens e opressões emocionais (enquanto esquizoanálise ainda engatinha no Brasil). Ninguém mais é inocente, o verdadeiro salafrário atira pedra e esconde a mão. Existe o controle remoto superior - situado no além dos aléns - e o artificial, que controla seus nervos carnais através de fios elétricos, por onde os deuses cientistas controlam tudo para analisar o efeito de novos métodos, como se a coitada fosse uma cobaia... A única solução é botar fogo em tudo! Ou o comunismo...

Dá vontade de encontrar Estamira pessoalmente e abraçá-la, dizer que a entendemos, que pensamos em coisas parecidas, chorar no ombro dela, tocado por cenas como aquela em que percebe-se seu sofrimento pela filha que não mora consigo dizer ser falta de fé o problema da mãe.

Mas Estamira beija a foto da filha mais nova, recoloca a imagem num altar, e não desiste de seu sistema de códigos pessoal com o qual identifica o céu e tudo o que existe nele como simples reflexo da terra, e seu pensamento é um cometa, que sob denso efeito de psicotrópicos a deixa inoperante e sem inspiração para condenar os trocadillos, então ela fica nas mãos do controle remoto artificial, o que ela odeia. Falando ao telefone em uma língua misteriosa, manda Deus à merda, ao caralho, ao inferno. Abaixa seu vestido de domingo e mostra a buceta ao neto, dizendo: "ó, tua mãe nasceu daqui, não foi Deus que botou ela no mundo!".


.
video

11/05/2008

inland empire

Não é pra entender.
Se os sentimentos estão alinhados a uma época que procura sentir o ilógico em relógios adiantados, o cineasta verdadeiro encanta o espectador que prefere brincar de se deixar levar ao invés de descobrir significados. Oculto na criança de cada amante da magnífica estética presidida na vida cotidiana de dramas, conflitos, perturbações emocionais e a bela forma que esses trecos tentam preservar, ele sobrevive.

Para avaliar a qualidade de uma obra em tempo de reality-shows e fábulas-alegóricas-não-condizentes à queda do império dos sonhos, é preciso ser um terrorista inconsciente, distante e isento de críticas revogadas ao que está mais baixo, mais indefesamente propenso a sacrificar-se em nome de ideais mais íntimos...
Nossas crianças assistem filmes sobre carros com vida própria, bruxos-mirins, e demais super-heróis que apagaram da memória o 11/9 e continuam lhes alimentando o sonho americano, através de personagens que resolvem transcender em sentido cerebral e vazio. Os pais nascidos nos anos 70/80 bem sabem que não há como se arrepender por terem visto um Kubrick inadequado pra de menor em madrugadas televisivas de pré-adolescências solitárias. Se a mensagem do ser humano passivo não continua fluindo em sensações só recuperáveis num #1 crush já balzaquiano, estaremos criando asnos com varinhas de condão não só em eventos de RPG e encontros cosplay.

Nazareno gosta de entender uma razão, uma moral na estória. Ele foi ver o filme pensando que se tratava de A Espiã. Até aí tudo bem: viu o começo e só por isso já o classificou como muito bom, uma coisa louca mesmo, legal... há toda uma preparação: primeiro a cena do projetor de cinema, na seqüência uma agulha toca o disco sob rápido jogo de luz e sombra; diálogos tipo walkie-talkie vão se estendendo em compassados barulhos de sinos abafados e a luz refletida no disco vai metamorfoseando-se num corredor de hotel, tudo em preto e branco. Porém a cena no qual um casal dirigi-se ao quarto não parece tão antiga como a do disco, embora continue no seu clima de filme-b: a mulher, desmemoriada, não sabia que tinha a chave para o quarto no qual ia entrar - primeiro significado chave do ultra-leitor do filme dentro do filme. O rapaz, suposto cliente ansioso pelo trabalho da jovem mulher, tenta conduzi-la. O rosto de ambos é encoberto por efeito de foco embaçado, impossibilitando-nos de identificá-los - primeira possível abstração do EU para uma "outra" personagem - enquanto a jovem aspirante pergunta O que devo fazer? Devo tirar as roupas agora?, ela deixa os seios suscitarem mais focos translúcidos e o homem tenta fazê-la recordar como caprichar nos também pouco perceptíveis movimentos de diáfano boquete, visto pela lente dos olhos dele. A "outra" personagem nos faz crer que é a moça do filme-b e estava fazendo teste com o diretor. O filme ganha cores, ela assiste, ofegante, uma TV fora do ar --está enrolada num lençol de cetim bordô, sentada na beira de uma cama forrada por adamascado cobertor verde, meio desarrumado, de um outro ou quem sabe o mesmo hotel da cena anterior--. O filme traz a primeira luminosidade diurna que vai potencializando-se, iridescente; à medida que uma bela trilha cantada em inglês (Polish Poem) atinge tons cristalinos e sublimes, a morena de traços eslavos chora, como que desiludida ou deixando a impressão de que é espectadora de um outro filme que está prestes a começar e ela já sabe o que irá acontecer: sua estória vai repetir-se com outra mulher que precisa libertá-la do peso de problema mal-resolvido do passado --que embarga a consciência dos bastidores de sua vida; logo a moça lamuriosa figura como personagem que "espera" salvação, solução iminente, de uma maneira tocante, incomum. Porém toda interpretação pode ser posta por água abaixo assim que vemos a próxima cena. No decorrer do filme, outras mulheres falam sobre acerto de contas, hipnotismo, assassinato com chave-de-fenda, previsões trágicas e outros diálogos vagos de diferentes idades, fases, tempos e lugares do EU antigo --estrangeiro, suspeito-- da personagem do filme "47". Uma vizinha grotesca adivinha que Nikki Grace, atriz hollywoodiana, deve interpretar o papel principal do filme sem saber que se trata de remake baseado num conto amaldiçoado de ciganos poloneses: o casal principal da primeira versão cinematográfica se apaixonou na vida real e foi assassinado, a mulher com a chave-de-fenda enfiada na região do fígado, do baço, por ali...

Então a moça lamuriosa abre passagem à TV com imagem de chuvisco: do outro lado do aparelho, como se a TV tivesse uma segunda tela na traseira, vista de cima uma família de coelhos contraria metabolismo e instinto, levando uma vida cotidiana doméstica pachorrenta: a coelha mãe sentada de frente à TV, num sofá centrado em espaçosa sala de pé direito alto e paredes verde-fraco-antigo; o ambiente parece valorizar o espaço entre os outros coelhos --o coelho pai que chega do trabalho e uma coelha camareira, mais "na dela", que passa roupa ao fundo, com movimentos lerdamente febris--. Primeiros diálogos entre roedores-sapiens são dignos de risadas por parte de uma platéia que situa-se fora do alcance de nossos olhos...

Depois que Nazareno viu que o dvd não era de A Espiã, ele caiu na gargalhada com a cena final do filme, mesmo efeito produzido pela cena em que Naomi Watts --filha de hippie-- tem um tremelique espasmódico quando tá assistindo aquela chicana com maquiagem bizarra e desenhos de lágrima negra borrados cantar Llorando --versão de Crying, by Roy Orbinson-- no clube Silencio, da antiga Cidade dos Sonhos de David Lynch; e sei lá o quê, talvez a emoção do playback faz a cantora desmaiar "do nada" no meio da música.

O cara não tem script certo. A coisa vai fluindo ao sabor dos personagens que avançam dentro de uma digressão com quase sempre finais felizes e românticos, porém centrípetos, tipo coming-back de ternura advindo de todos sentidos. Dispersões do EU ganham vida própria e convivem em harmonia, ao contrário de Clube da Luta.

A trilha-sonora é linda, além do próprio diretor com Ghost of Love, tem Beck, Nina Simone, White Rabbit - que um dia Jefferson Airplaine apresentou no festival de Woodstock. Dizem que é inesquecível trabalhar com David Lynch, um cara gente fina, espírita. No set de filmagens o clima é de apaziguamento e há tranqüilidade no avanço das gravações, embora o que aconteça em cena nos faça pensar de outra forma. Os atores, figurantes e funcionários se tratam com amizade pois o diretor tem firmeza no que propõe sem deixar de saber ouvir sugestões alheias, com razoabilidade nas decisões. Você é conduzido à sutileza vinda da tragédia, como o conselho das prostitutas que miram lanternas na cara de Nikki na casa cenográfica (onde ela reencontra o ilustre abajur laranja intenso): deve-se observar a vida através de um buraco de cigarro feito em fino tecido de seda rosa.

 






10/05/2008

pai e filho

arroz feijão
já dá pra ver
na esquina do hipermercado
na TV
Lula na TV