19/02/2010

Ontem fui manguear com Soraya (26) na estação Vila Mariana. Abordei uma mulher: ela era de igreja: disse que eu tava espiritualmente paralisado, daí falou passagem bíblica: um paralítico pede esmolas na frente do templo. Ela não dá dinheiro, mas pergunta meu nome e diz que apartir deste dia estaria eu liberto de Satanáquia, prometendo orar, depois (por mim), ao se deitar...
Voltei com Soraya pro terminal, depois voltei pro metrô: reencontrei a irmã (de cabelo vermelho alisado, olhos tabajara com leve brilho de antepassados talvez judeus); ela aproveitou o despreparo do reencontro e perguntou se eu fumava droga: disse-lhe que só bebia uma taça de vinho por dia, pois faz bem ao coração... Leque de reflexão seria ideal numa hora dessas, minha letra voltaria a encolher, aqui dormiria ouvindo a cadência bonita do samba, em estado alfa, com pontas do passado e do futuro vislumbrando respirar...
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Conseguimos aqué. Minha colega de penação foi pro albergue, eu voltei pra pensão. Havia batido no bebum (43) colega de quarto na noite anterior, não queria arranjar desculpa pra quebrar uma tv que gosta de ser bem ouvida até 3 a.m.; não vi o dono dela antes de dormir. Acordando, lá estava mais uma vítima da sociedade exalando etanol de sua cama, mas com o bico calado. Saí sem olhar pra trás. No almoço dos espíritas, lá estava Soraya de novo, com seu timbre de eterno falsete:
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_ posso morar com vc?
_ (leque abrindo...) pode...
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1/2 - só quem tem experiência de rua é capaz de entender o silêncio imposto pela sociedade que vai morrer daqui a alguns anos...
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Não: tudo que é demasiado pessoal, tudo que sugere presença, personalidade e amor-próprio não escureceu suficiente recomeço de vida. Acordo ouvindo o verso we can be heroes/ just for one. day e interpreto como nunca antes, acredito: há alguém vivo cantando - exegese suficientemente longe pra saber disso - vida, por um momento tão claro, o que é pesado e o que é leve, por um momento, a realidade... A vida normal da classe média impõe verdades e, fazendo pazes com o que ela considera "o óbvio", torna-se feliz qualquer pessoa que não tiver formação trotskista. Fico pensando... o que amigos de Porto pensariam se me vissem orando num café da manhã para mendigos da igreja Renascer em Cristo...
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1/3 - ué... Marina Silva é crente, HH é crente, qual o problema da fé? Meu amigo americano, Mark Halfmann (24), diz que Jesus voltará, escrevo o nome dele aqui porque ele mora em Chicago, numa região cujo nome sempre consta nas listas do sitemeter, e quero que ele leia isso: amigo, sinto sua falta, não sei quando você vai pra Singapura, mas quero te ver again, man! Devo explorar mais a vida e pensamentos? Me responda.
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Quero acreditar que existem pessoas boas, não quero mais nada... Já entreguei a vida a Deus e ouço Canto a Oxalá - música tranquilizante pós-rango com lágrimas e soneca num jardim de escola vazia. Soraya diz que tá na hora, tá na hora de partir. Me levanto sem sentir pureza dos cochilos de biblioteca, aquela limpeza que só a deusa da sabiduria concede. Conhecimento, minha sede, estude...
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2 - olho meus olhos no espelho sem querer...
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2 comentários:

luma disse...

Ok. eu sempre leio e nunca comento, eu acho que vc tem muito talento e tbm acho que ja deve ter lido muitas coisas para escrever tão bem... Apesar disso nunca comento porque você leva uma vida muito diferente da minha, de um jeito que eu acho q eu nunca vou viver, é muito dificil 'achar', muito dificil contextualizar e até mesmo sentir, porem apesar disso eu gosto muito de ler as coisas que você escreve porque além de me despertarem alguma especie de catarsese eu vejo lirismo e estetica, fico feliz que você tenha um blog e torço para que varias pessoas tenham contato com as informações daqui

beijinhos
p.s. li seu email, realmente ñão tem nada que eu posso fazer por vc... aqui perto de casa no belem tem pensões baratinhas.. posso até te passar os numeros mais nada que vc n encontre pelo mesmo preço no centro...

um cara legal... disse...

pode crê...